Sobre estar só
Era manhã de domingo, o sino da Igreja da praça central encarregava-se de acordar os mais atrasados e os bêbados inconscientes. Chovia um pouco, uma chuva tão fina que Alice mal concebia que fosse real, exceto pelo caráter molhado. Alice corria desesperada e desesperada corria; numa corrida sem destino, sem sentido, num só desatino; Alice era carregada pelo pranto, num rompante de dor que afligia sua vida e diminuía seu mundo.
Ela correu e correu até cair, de repente surgiu Ana com um lenço a mão, e começou logo a dizer:
- Seus olhos eram como verdade.
- Inverdade que eram. Em verdade, sempre serão. – retrucou Alice.
- Como o vento que passa passado tornou a ser.
Alice nunca iria aceitar deixar no passado o que sempre fora esperança de um grande futuro, preferiria eternizar tudo o que viveu. Mas, se o amor é um sentimento que tenta transcender o que é concreto; a dor, por sua vez, destrói até o inimaginável e de repente tudo perde o sentido. Alice voltou a correr; parou! E no meio da multidão sentiu-se tão só; nem as palavras de Ana, nem a família em passeio, nem a taberna de Seu Elias, nem o açougue de Seu João, nem as crianças no parque, nada podia trazer Alice de volta ao mundo. Alice perdeu o chão e o mundo se fez silêncio. A última flor foi jogada no sepulcro de Pedro.

4 Comments:
Nossa, que bonito, Felipe!
Bjos amelisticos
amor - pedro - dor...
juro que em vez de alice, devia ser yara.
Às vezes pra estar só se precisa de tão pouco... =/
boquiaberta!
perfeito!
=]
=*
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